Latimeria chalumnae e Latimeria menadoensis são as duas espécies vivas de Celacanto, esse peixe de aparência rudimentar e nada comum. O significado da palavra Celacanto é “coluna oca”, por conta de suas barbatanas de tecido ósseo. Eles são peixes grandes, chegando a quase dois metros de comprimento, de hábitos noturnos e piscívoros. A história do redescobrimento dos Celacantos e as pesquisas atuais envolvendo esses peixes são imprescindíveis para podermos entender os caminhos da Evolução.

O Lázaro táxon

Acreditava-se que os Celacantos estavam extintos desde o Cretácio Superior, há cerca de 70 milhões de anos. Porém, em 1938 na África do Sul, um exemplar vivo foi encontrado pela curadora de um pequeno museu: Marjorie Courtenay-Latimer ficou surpresa ao encontrar um espécime de Celcanto ao analisar as sobras de uma pescaria. Marjorie registrou o espécime cuidadosamente e a ideia de ter outros indivíduos daquele peixe nadando pelos mares deixou pesquisadores da época afoitos. Assim, os Celacantos ganharam a denominação de Lázaro táxon, ou seja, a “ressuscitação” de uma espécie até então dita como extinta. Quinze anos depois, um outro espécime foi encontrado no arquipélago de Comoros e, desde então, vários já foram avistados. Em 1997, a espécie Latimeria menadoensis foi descoberta na Indonésia.

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                               Anotações de Marjorie Courtenay-Latimer

A possível chave para a Evolução

Esses peixes podem nos ajudar a entender como o processo de transição da água para a terra aconteceu no planeta. Eles apresentam características semelhantes ao do primeiro peixe que rastejou para fora da água: as nadadeiras lembram os membros dos vertebrados terrestres.

A movimentação das nadadeiras também é semelhante ao movimento de andar dos vertebrados terrestres. O genoma dos Celacantos foi mapeado em 2013, após a comparação do RNA da espécie de peixe-pulmonado Protopterus annectens (da classe dos dipnoicos) com o Celacanto Latimeria chalumnae. O estudo mostrou que os peixes-pulmonados tem um parentesco grande com o tetrápodes, que são os vertebrados atuais (como eu, você e demais anfíbios, répteis,  aves e mamíferos). Porém, o genoma dos dipnoicos é muito grande, tornando os Celacantos a melhor opção para explicar a transição dos vertebrados da água para a terra.

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                                                                         Detalhe das nadadeiras

A descoberta brasileira em parceria com museu da França

Este ano, pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em parceria com o Museu de História Natural da França descobriu a existência de um pulmão não funcional nas espécies vivas de Celacantos. O órgão primário e sem uso pode fornecer grandes pistas de como era o processo de respiração das espécies extintas. Nos tempos atuais, os Celacantos habitam as profundezas do oceano que banha a África do Sul e a Indonésia.

O estudo indica que a migração dos Celacantos para o fundo dos oceanos foi uma tática inteligente: durante o período Cretáceo-Paleogeno, houve uma extinção em massa na Terra. Dessa forma, os Celacantos que foram para as profundesas sobreviveram e, os que permaneceram nas águas rasas, foram dizimados. Eles pararam de ter respiração aérea mas ainda preservam o órgão. Quem sabe uma permissão da natureza para descobrir seus segredos e artimanhas.

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                                       O pulmão rudimentar, representado em vermelho