Os cinco primeiros relatórios sobre pesquisas envolvendo a fosfoetanolamina foram divulgados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) na plataforma do órgão criada especialmente para tratar sobre o tema. Dentre os trabalhos, foram analisados a composição química das capsulas, dosagem permitida, ação citotóxica e antiproliferativa , genotoxidade e a síntese do produto.

A fosfoetanolamina tem sido um tema bastante recorrente e popular há mais ou menos um ano. A Universidade de São Paulo (USP) vem sendo pressionada pela Justiça a fabricar e distribuir, de graça, as “pílulas do câncer” a várias pessoas doentes. Porém, não há registro de segurança sobre o remédio e nem bula ou contraindicações.

A fosfoetanolamina é derivado de um composto químico orgânico chamado etanolamina (monoetanolamina), encontrado em diversos animais mamíferos. Esse componente ajuda na produção de esfingolipídeos, um tipo de lipídeo que faz parte da composição estrutural das membranas celulares e das mitocôndrias.

O composto fosfoetanolamina foi sintetizado e purificado pela primeira vez em 1936 por Edgar Laurence Outhouse. Aqui no Brasil começou a ser sintetizado no final da década de 80 pelo então professor do Instituto de Química da USP Gilberto Orivaldo Chierice. Ele utilizou resultados de eficácia não clínica que mostravam que, em altas concentrações, a fosfoetanolamina promovia a diminuição de vários tipos de tumores (cânceres).

Neste texto produzido para o site Ciência e Astronomia, vamos explorar os resultados dos cinco relatórios conforme a ordem colocada pela plataforma especial para pesquisas da fosfoetanolamina do MCTI.

  1. Componentes químicos das amostras de fosfoetanolamina produzidas pelo Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo

Realização: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Fármacos e Medicamentos (INCT-INOFAR) no Laboratório de Química Orgânica Sintética (LQOS) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

O relatório fala que 60 cápsulas de fosfoetanolamina (FOS) sintéticas (feitas pela USP) foram encaminhadas para os testes. 16 cápsulas foram abertas e pesadas e nenhuma dessas cápsulas apresentavam o mesmo peso em miligramas (mg). Os pesos encontrados foram: 233 mg, 273 mg, 278 mg, 304 mg, 316 mg, 317 mg, 325 mg, 328 mg, 331 mg, 342 mg, 345 mg, 348 mg, 352 mg, 358 mg, 359 mg e 368 mg.

Nas cápsulas, três componentes orgânicos e dois componentes inorgânicos foram encontrados. São eles a fosfoetanolamina (FOS associada ao sal de monoetanolamina), fosfobisetanolamina (FBEA), monoetanolamina protonada e os componentes inorgânicos fosfatos e pirofosfatos. Ou seja, a informação de que as capsulas de fosfoetanolamina são puras não confere.

Os resultados finais mostram que 32,2% da composição é de FOS, 3,9% é de FBEA, 34,9% são fosfatos (cálcio, magnésio, ferro, manganês, alumínio, zinco e bário), 3,6% são pirofosfatos (cálcio, magnésio, ferro, manganês, alumínio, zinco e bário) e 7,2% é água.

  1. Avaliação do Potencial Citotóxico in vitro da Fosfoetanolamina Sintetética (FS) e da Fosfoetanolamina Sintética Nanoencapsulada (FSNE)

Realização: Laboratório de Encologia Experimental da Universidade Federal do Ceará (UFC)

(Para que ninguém se perca daqui pra frente: Fosfoetanolamina Sintética – FS – é o composto bruto; a nanoencapsulada – FSNE – é a capsula da USP).

FS e FSNE foram utilizadas em linhagens dos cânceres de colo do reto (colorretal), de próstata e gliobastoma (um tumor raro maligno que afeta o cérebro ou a coluna vertebral). Também foram testadas nas células de um tecido chamado fibroblasto e em uma célula do sangue.

Os resultados mostram que tanto a FS quanto a FSNE apresentaram atividade citotóxica (ou seja, poder de destruição de células cancerígenas) apenas em concentrações muito elevadas tanto nas células tumorais quanto nas não tumorais. Os efeitos antiproliferativos (ou seja, de impedimento de crescimento celular) apenas ocorreram nas células do fibriblasto e na célula do sangue.

O trabalho, entretanto, conclui que FS e FSNE não são citotóxicas pelo fato de funcionarem somente em quantidades mais altas do que as drogas comumente utilizadas. Eles ainda ressaltam que os testes em humanos darão mais credibilidade a esse resultado.

  1. Avaliação da Atividade Citotóxica e Antiproliferativa da Fosfoetanolamina, Monoetanolamina e Fosfobisetanolamina em Células Humanas de Carcioma de Pâncreas e Melanoma

Realização: Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínico (CIEnP)

O trabalho mostrou os testes sobre atividade citotóxica e antiproliferativa das cápsulas enviadas pela USP. Foram isoladas das cápsulas as substâncias fosfoetalonamina, monoetanolamina e fosfobisetanolamina e colocadas em contato com células do câncer de pâncreas e de melanoma, um caso grave de câncer de pele.

Os resultados mostraram que apenas a monoetanolamina apresentou atividade citotóxica, porém, 6500 vezes mais ineficiente do que as drogas comumente utilizadas. A cisplatina, uma droga utilizada em tratamentos de câncer, apresenta 100% de inibição do câncer. A fosfoetalonamina e a fosfobisetanolamina não apresentaram nenhuma atividade citotóxica nem antiproliferativa das células tumorais.

Lembra que a fosfoetanolamina é derivada da monoetanolamina e que a monoetalonamina é encontradada em todos os mamíferos? Ela até reduz o câncer, mas o paciente morre mais rápido já que a sua eficiência é 6500 inferior aos remédios comumente usados.

  1. Avaliação máxima da dose tolerada e seleção de doses de fosfoetanolamina sintética, produzida pelo IQSC-USP em roedores

Realização: Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínico (CIEnP)

Os pesquisadores fizeram testes da dose máxima tolerada das cápsulas em roedores. Cada roedor recebeu duas doses: a primeira de 5.000mg/kg via oral e 1.000mg/kg durante sete dias e ficou comprovado que a fosfoetalonamina não é uma substância tóxica ao organismo, ou seja, não causa danos.

 

  1. Avaliação da genotoxidade da fosfoetanolamina (USP- São Carlos): teste de mutação reversa em Salmonella typhimurium

Por fim, o último relatório mostra os resultados de testes de reversão de mutação em um tipo de salmonela. A substituição de genes visa deletar, alterar ou adicionar genes diferentes em um determinado organismo.

Os resultados foram: a fosfoetanolamina da USP não apresenta atividade mutagênica, ou seja, não é capaz de trocar, adicionar ou subtrair genes de um determinado organismo. Isso significa que as capsulas não mudam, por exemplo, os genes de uma célula com câncer.

Agora é esperar pelos testes em humanos. Confira todos os relatórios na íntegra clicando em cada subtítulo do texto.

Fonte: Portal do MCTI especial para a fosfoetanolamina