No imaginário popular é comum termos contato com naves alienígenas. Elas estão presentes em livros, nos filmes de Hollywood, em canções e nas estórias contadas de boca em boca. Essas naves nos deram acesso a criaturas amigáveis e com cara de joelho velho, como o ET do filme do Spielberg, ou criaturas malvadas com o objetivo de provocar um apocalipse da raça humana, com as descritas no livro Guerra do Mundos de H.G Wells. O termo disco voador é conhecido por todos, relatos de suas aparições pipocam por todos os lados, irrigam o imaginário das pessoas, atraem os olhares famintos dos jornais sensacionalistas, e fomentam lucro fácil para autores e supostos pesquisadores do assunto. Mas que parcela desse fenômeno podemos tomar como verdade?

Não podemos negar que o fascínio pela possibilidade de existir vida fora do nosso planeta é grande, basta perceber o imenso esforço da comunidade científica na busca de planetas em outros sistemas solares, e das inúmeras missões ao nosso vizinho Marte para estudo do planeta. Astrônomos e astrobiólogos dedicam suas vidas nesses estudos. Porém um incontável número de pessoas apostam suas fichas em uma pseudociência denominada de ufologia, que tem por premissa o estudo e a análise de UFOS (unidentified flying object), sigla em inglês para objeto voador não identificado, chamada em português de OVNI. Geralmente as pessoas confundem a astrobiologia com a ufologia, sendo que a primeira é totalmente distinta da segunda, já que a astrobiologia é o estudo interdisciplinar da origem, evolução e distribuição da vida no universo, usando método científico de estudo na busca de locais onde seria possível existir a vida como conhecemos. Já a ufologia se baseia no fenômeno da aparição OVNI para um hipotético estudo do mesmo.

O termo OVNI deve ser aplicado a observação de qualquer objeto voador que no momento não tenhamos como identificar. Mesmo um pedaço de jornal levado a grandes altitudes por correntes de ar, quando não identificado, pode receber a sigla OVNI. Acontece que uma grande parcelas dos adeptos da ufologia, ao presenciar a passagem de uma simples página de jornal sobre suas cabeças, incorrem ao erro de ao invés de admitir que não sabem do que se trata, assumem uma explicação fantasiosa para o ocorrido. Não é raro se deparar com a alegação de que se o objeto não emitia som, não andava em linha reta, e não era passível de identificação visual no momento, de que ele não deveria ser um objeto proveniente, ou controlado por humanos, logo, deve ser um objeto alienígena. A interpretação errônea não ocorre quando não conseguimos identificar um objeto no céu, o que é plausível, o erro ocorre quando se parte da crença que esse objeto é extraterrestre.

Nascido durante os anos mais tensos da guerra fria, o termos UFO foi criado para ser utilizado por quaisquer objetos ainda não identificados. Eram anos onde a espionagem e o medo de uma guerra nuclear ocupavam um bom espaço na vida das pessoas, Aeronaves clandestinas, aquelas usadas para espionagem, e até mísseis recebiam a alcunha de OVNI. Basicamente todo objeto que fosse detectado pelos radares, e que não se poderia afirmar até o momento que natureza tinham, eram chamados assim até a identificação.

A ufologia como conhecemos nasceu em 1947 com a infantilidade de alguns membros da força aérea dos Estados Unidos em anunciar que tinham recuperado pedaços de um disco voador. Iniciava-se aí a era moderna das visualizações de OVNIS. Desde então, de tempos em tempos essas estórias são repaginadas para os dias atuais e surgem na TV e em jornais.

Em 24 de Junho de 1947, Kenneth Arnold viu 9 objetos sobre o Monte Rainier, no estado americano de Washington no Estados Unidos. Ele os descreveu como sendo grandes asas voadoras (Provavelmente ele tenha visto pássaros migrando), porém o repórter que o entrevistou acabou trocando asas por discos. O que a grande maioria da população da época, acreditava ser aviões secretos, tanto americanos em teste, ou até mesmo russos espionando os céu da região. Porém desde então, surgiram milhares de relatos e testemunhos da observação desses “discos” pelo mundo. Sempre influenciados por um erro de um jornalista.

A força aérea dos Estados Unidos, sabendo da possibilidade de existir espionagem soviética utilizando aviões, decidiu oferecer uma recompensa a quem apresentasse provas concretas da existência de OVNIS. O objetivo dessa recompensa era simplesmente ter mais olhos prestando atenção no céu, na tentativa de descobrir aviões espiões secretos sobrevoando os céus do país.

Foi em busca dessa recompensa que um morador de Roswell resolveu comunicar aos militares que um balão meteorológico que havia caído próximo a sua residência. Acostumado a encontrar restos de balões meteorológicos, não lhes deu importância de início, só vindo a recolher o material alguns dias depois, juntamente com a sua mulher e seu filho. Nesse mesmo dia ele contou a sua história aos vizinhos, que o informaram que alguns jornais ofereciam até 3.000 dólares por uma prova dos chamados “discos voadores”, assunto que estava causando furor na imprensa devido às declarações de Kenneth Arnold feitas um mês antes. Eis então que os famosos discos voadores se tornam famosos pelo mundo, tendo milhares de supostas aparições nos dias seguintes a esse episódio.

O ocorrido em Roswell acabou esquecido até 1978, quando ele voltou à tona com uma explosão de sensacionalismo, onde Stanton Friedman e Jesse Marcel afirmavam que nunca tinham visto nada como o material encontrado em Roswell, que acreditavam ser de origem extraterrestre. Assim, o assunto Roswell voltou às manchetes e Marcel virou uma celebridade no mundo da ufologia. Uma conclusão totalmente baseada em crenças pessoais e não no que realmente aconteceu em 1947.

Posterior e esses acontecimentos, até aos dias atuais, as pessoas que alegam ter visto tais objetos em forma de disco, provavelmente tenham sido influenciadas pela literatura, TV ou outro meio de comunicação social, tendo em vista que os discos voadores surgiram de um erro de interpretação de um jornalista, dando origem ao termo.

Se olharmos as supostas aparições de naves alienígenas com olhar mais técnico, começamos a perceber algumas falhas que tornam a ufologia um engodo.

O primeiro ponto que não é explicado pela ufologia é como os alienígenas chegam aqui. Sendo que uma nave espacial, cujos motores funcionassem a hidrogênio, só para ser acelerada à metade da velocidade da luz, teria que ter mais de 80 vezes a sua massa em combustível. Conforme vemos em artigos publicados pelo Observatório Astronômico Frei Rosário, do Departamento de Física da UFMG. Porém, se questionado, um ufólogo dará a resposta de que não podemos comparar a tecnologia avançada dos alienígenas com a nossa tecnologia, desprezando o fato de que as leis da física não se restringem ao planeta Terra. Além do que, mesmo para uma tecnologia tão avançada, vir até aqui somente para observar como vivemos não seria um Big Brother com um custo benefício muito bom.

Um outro ponto dado pelos ufólogos como prova da veracidade dos estudos ufológicos são os relatos de abdução. O ufólogo Budd Hopkins, afirma que 2% da população mundial já tenha sido abduzida, o que se considerarmos um simples cálculo baseado na população mundial, dá um número de aproximadamente 140 milhões de sequestros e abduções, um número quase 54 mil vezes maior que o número de sequestros ocorridos na Colômbia em 10 anos. Com um número desses de abduções, deveria ser comum conhecermos, ou termos pessoas próximas que tenham conhecido algum desses abduzidos? Mas se sair em sua rua perguntando, provavelmente não obterá um sim como resposta.

Até mesmo as imagens de supostos OVNIS estão diminuindo com o avanço da tecnologia, e as que ainda pipocam pela internet não passam de montagens, brincadeiras, defeitos do sensor, reflexos ou sujeira na lente. Com a fotografia digital, e a popularização dos vídeos em alta definição, temos uma diminuição das imagens borradas, que dificultavam a identificação do que era visualizado. Tanto que entre astrônomos amadores existe hoje uma brincadeira que para ser um bom ufólogo é necessário adquirir uma câmera de baixa resolução, dessas que tem 35 funções e descasca batatas.

Basicamente a ufologia atual sobrevive com testemunhos e relatos de pessoas que dizem ter visto ou tido contato com esses objetos ou seres, o que chamamos de testemunho ocular, que é uma dos piores formas de evidências que se pode ter. Depender do testemunho seu ou de outros, é depender de relatos observados por um ponto de vista particular, suscetível a falhas, a imaginação, ilusão de ótica, pareidolia, fé e interesses dessas pessoas. Um fato importante que devemos considerar sobre a observação visual de OVNIS é a quantidade de astrônomos amadores que observam o céu todas as noites, em praticamente todo o planeta, por anos, e que nunca visualizam OVNIS, pelo simples fato de conhecerem o céu, e sempre procurarem saber o que estão vendo.

O simples fato de nunca ter existido uma única prova concreta sobre a relação entre os OVNIS e naves extraterrestres, e que toda a ufologia se sustenta somente em relatos não objetivos e imagens inconclusivas, unidas ao fato que hoje praticamente todos carregam consigo um celular munido de câmera, e que toda essa tecnologia só serviu para aumentar a quantidade de imagens falsas e facilitou a explicação de fenômenos naturais associados ao fenômeno, nos leva a entender o quanto a ufologia é equivocada em suas premissas.

A ufologia é hoje uma as pseudociências mais difundidas, e aceita por muita gente sem nenhum questionamento, pelo simples fato de aguçar a imaginação, e que não precisa muito para achar que viu um OVNI. Basta um ponto luminoso não identificado, ou uma simples mancha no céu, para poder falar para todos os amigos que teve um contato imediato. Se somarmos algumas teorias da conspiração nessa receita, temos combustível para livros, documentários, programas de TV sensacionalistas, revistas especializadas sobre o assunto e blogs. Seja os adeptos da ideia dos astronautas antigos, ou aqueles que morrem de medo de cometas por achar que eles trazem naves perigosas, todos estão propagando suas crenças pessoais em uma raça superior que está nos observando, somente para um prazer voyeur.

Não existe um objetivo prático, em acreditar que somos visitados por seres de inteligência tão superior, que mesmo sendo capazes de viajar por anos-luz para chegar em nosso planeta, podem se camuflar, mas ainda são capazes de esquecer o farol aceso para que sejam vistos por pessoas que estejam a beira da estrada. E é uma ingenuidade imensa achar que uma raça superior se deslocará até aqui algum dia apenas para observar, pois basta uma simples passada pela história da humanidade para ver que isso é utopia.

Afinal, ainda somos o único planeta habitado conhecido, e nossa espécie foi capaz de aprender a empilhar pedras sozinha.

Fonte: Revista AstroNova, texto: Maico Zorzan – Todos os direitos de exposição e utilização do artigo cedidos ao Ciência e Astronomia.