Os caminhos e trilhas fazem parte da vida das pessoas desde que a espécie humana vivia em cavernas, e eram utilizados para realização de atividades básicas como caça, coleta de alimentos e migração. Alguns se tornaram mais conhecidos e apresentaram maior importância na história, já outros sumiram com o passar do tempo.

Trecho ainda conservado do Peabiru

Trecho ainda conservado do Peabiru

Porém com a modernidade, traçados históricos foram apagados ou substituídos por estradas da engenharia moderna e contemporânea. O que dificulta o estudo e a obtenção do verdadeiro traçado de um caminho antigo, ficando muitas vezes limitados ao uso de mapas antigos, descrições e relatos de viajantes e informações do imaginário da população que teve contato com o caminho. Durante a colonização do estado do Paraná diversos caminhos foram determinantes para a formação do nosso território. Entre os caminhos que fizeram parte de nossa história, podemos destacar o Caminho Peabiru, sendo descrito como a mais importante rota transcontinental da América do Sul, do período pré-colombiano, apresentando aproximadamente três mil quilômetros de extensão, atravessando o continente do oceano Pacífico ao oceano Atlântico. A época de sua construção é desconhecida e existem muitas dúvidas quanto aos seus verdadeiros criadores, índios da nação Guarani, Jê ou até mesmo os Incas.

Na língua guarani a palavra Peabiru é uma derivação de “Tape Aviru” ou “Ta pe a beyuy”, podendo ser traduzido como caminho forrado, caminho antigo de ida e volta, caminho pisado, caminho sem ervas e, apresentava um forte significado, para esta tribo, pois era considerado o caminho para a Terra sem Mal, pelo qual os indígenas caminham em busca do paraíso.

Algumas características marcantes do Peabiru chamam a atenção, pois ao longo de seu percurso apresentava aproximadamente 08 palmos de largura, o equivalente a 1,40 metros e 0,40 metros de profundidade, sendo todo o percurso coberto por uma espécie de gramínea que não permitia que a erosão e as plantas daninhas danificassem o trajeto.

Estrada no município de Pitanga - Pr, onde supostamente passava o Peabiru

Estrada no município de Pitanga – Pr, onde supostamente passava o Peabiru

Acredita-se que expedições exploradoras de portugueses e espanhóis, assim como viajantes e aventureiros de diferentes origens, palmilhavam os trajetos do Peabiru, todos em busca do ouro, da prata e das riquezas que supunham existir no interior das matas. Além das entradas, breve os caminhos de Peabiru seriam amplamente utilizados também pelas bandeiras, para a Caça aos índios.

Outro grande grupo percorre o Peabiru em 1541. Trata-se de Alvaro Nuñez Cabeza de Vaca, conquistador espanhol que vem assumir o governo da região onde hoje é o Paraguai. Com 250 homens e 26 cavalos, aportou na ilha de Santa Catarina e posteriormente dirigiu o grupo às nascentes do rio Iguaçu, na região de Tindiquera (atual Araucária); passou pelos campos de Curitiba e seguiu para os Campos Gerais. Alcançou o Tibagi, depois o Piquiri, e retomou ao Iguaçu, descendo o rio até os saltos de Santa Maria (cataratas do Iguaçu). No registro desta viagem, é perceptível a grande densidade demográfica da região, pois, contando com guias Carijós, por todo o trajeto a expedição mantém contato com inúmeros grupos indígenas da mesma nação, assim como são citados os confrontos que ocorrem com seus inimigos Jê.

O Peabiru também foi protagonista de muitas lendas e contos, tendo muito vivo e forte seu lado esotérico e fantasioso. Dizem por exemplo, que Tomé, o discípulo cético de Jesus, percorreu seu trajeto, chegando pelo mar, e pregando sua crença entre os índios.

Atualmente, restam apenas alguns vestígios do que foi o grande trajeto que ligava o Brasil ao Peru. Muitas cidades foram fundadas nas cercanias da trilha, como a própria Peabiru, que existe até hoje no norte do Paraná. Surgido em 1903, o município foi criado pelos inúmeros colonizadores que, acompanhados de suas famílias, construíram casas e se dedicaram à agricultura, o que levou mais pessoas aos arredores do Caminho de Peabiru, formando assim, vilas e povoados adjacentes.

Mas, e qual a relação entre o lendário caminho e a astronomia?

Se olharmos os mapas existentes do Peabiru, chama logo a atenção o fato dele não ser na direção norte-sul e nem leste-oeste, mas sim “inclinado”; ele vai aproximadamente de sudeste para noroeste. Ao notar essa inclinação, a primeira pergunta que se coloca é a seguinte: por que os índios escolheram essa direção ao abrir a trilha? E como eles se orientaram para percorrer esse caminho?

Se olharmos para o céu, em condições propícias, podemos ver a Via Láctea, que era chamada pelos guarani de CAMINHO DA ANTA (Tapirapé), ou MORADA DOS DEUSES. Que importante característica o caminho para a Terra Sem Males teria se fosse similar a aquele caminho que estava no céu, onde em sua crença, caminhavam os Deuses e os espíritos. Seguindo a Via Láctea por terra, os índios viam que o fim do Caminho Celeste ia dar no mar, no oceano Atlântico. Portanto, a Terra Sem Males ficaria “ali”, ou “lá”, em algum lugar. Por isso eles foram na direção do mar. Mas e do lado contrário do Caminho da Anta, o que existe? Indo à procura na terra, seguindo a Via Láctea, acabou chegando num outro mar – o oceano Pacífico.

Artefatos indígenas encontrado no caminho

Artefatos indígenas encontrado no caminho

Então a ideia básica é essa: o Caminho que os construtores do Peabiru percorreram é aquele da Via Láctea. E que é também, é aproximadamente o caminho que liga as posições do nascer-do-sol no verão com o pôr-do-sol no inverno. Ou seja, SUDESTE-NOROESTE.

Também foram encontrados nos poucos trechos remanescentes do caminho, alguns sinais e marcações de arqueoastronomia, dando a importância do céu noturno nessa etapa das civilizações pré-colombianas.

Artefatos indígenas encontrado no caminho

Artefatos indígenas encontrado no caminho

 

Para quem quer saber mais sobre o Caminho do Peabiru, recomendo a bibliografia abaixo:

Acervo digital do Museu Paranaense: http://www.museuparanaense.pr.gov.br/

GEOPROCESSAMENTO APLICADO A ESTUDOS DO CAMINHO DE PEABIRU: http://anpege.org.br/revista/ojs-2.2.2/index.php/anpege08/article/viewFile/41/pdf-mm

CAMINHO DO PEABIRU: UM RESGATE CULTURAL PARA O TURISMO: http://vdisk.univille.edu.br/community/mestradopcs/get/Dissertacoes/ValdirCorrea.PDF

SABERES ASTRONÔMICOS DOS TUPINAMBÁS DO MARANHÃO (Germano Bruno Afonso) : http://www.sbpcnet.org.br/livro/64ra/PDFs/arq_1506_96.pdf

AFONSO, G. B. . Constelações Ocidentais e Constelações Indígenas. Urânia, v. 5, p. 22-23, 2012.

AFONSO, G. B. . Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Edição especial scientific American Brasil, v. 14, p. 46-55, 2006.

AFONSO, G. B. ; NADAL, C. A. . ARQUEOASTRONOMIA Arqueoastronomia no Brasil. In: Oscar T. Matsuura. (Org.). História da Astronomia no Brasil (2013)

 

Texto original da Revista AstroNova.