1935: as plantações de cana-de-açúcar na Austrália estavam, em parte, indo muito bem se não fosse por pragas que dizimavam plantações e fazendas inteiras. A solução estava num bichinho trevoso e grande, venenoso e conhecido tanto de quintais alheios quanto de músicas infantis de domínio popular: 100 exemplares de Rhinella marina, ou sapo cururu, foram inseridos no país para fazer um controle biológico das pragas.

Mas, o que era para ser uma solução rápida e eficiente virou um problema e esse bicho hoje está na lista classe um de drogas proibidas e paga-se um bom dinheiro para quem souber como acabar com esses sapos. O sapo cururu virou um problema alarmante e mostra como controles biológicos podem ser perigosos.

A inserção desses sapos para fazer controle biológico foi otimista demais e ignorou alguns ‘pequenos detalhes’: esses sapos são muito grandes, chegando a 15 centímetros de comprimento, muito venenosos (são peçonhentos, ou seja, usam o veneno para caçar) e não há predadores para eles. O resultado não foi outro: as autoridades perderam totalmente o controle dos sapos e, hoje, ele representa uma ameaça a biodiversidade local.

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                  Sapo capturado na Austrália

Evolução e invasão

Alguns estudiosos apontam que os sapos cururus ocupam uma área de um milhão de quilômetros quadrados na Austrália (mais que a superfície do estado do Mato Grosso). Na década de 60, os sapos invadiam 10 quilômetros de áreas por ano. Hoje, esse número cresceu para 50 quilômetros de áreas invadidas por ano.

Além disso, o sapo cururu soube se adaptar bem ao ambiente e evoluir. As pernas deles cresceram muito de tamanho em relação aos primeiros 100 sapos inseridos no país. Assim, a invasão de mais áreas pode crescer bastante. No estado de Queensland, os sapos cururus tem pernas que correspondem a 35% do seu tamanho total. Os que vivem na linha de frente da migração, tem pernas que correspondem a 45% do seu tamanho.

Morte de crocodilos

A vida selvagem australiana tem sofrido bastante com os sapos. Qualquer animal nativo que tente fazâ-los como presa, seja cobras, aves de rapina, lagartos e até mesmo os crocodilos, acabam sendo instantaneamente mortos. Esses animais ainda não estão acostumados com os sapos cururus pois os sapos nativos da região não contém venenos tão perigosos quanto o deles.

O crocodilo de água doce tem sofrido com o declínio gritante de sua população devido ao consumo desses sapos. Esses crocodilos de água doce em nada se parecem com aqueles enormes que aparecem em filmes. Os de água doce, chamados de Crocodilos Johnstons, não apresentam ameaça aos humanos.

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                         Animais domésticos também são vítimas constantes

 

Estudos mostraram que em quatro localidades australianas a queda da população dos Crocodilos Johnstons chegou a 45% após a chegada dos sapos cururus. Os pesquisadores não eram acostumados a encontrar esses crocodilos mortos durante pesquisas de campo, mas, em apenas uma atividade de campo, 34 crocodilos de água doce eram encontrados mortos em média.

Droga ilícita

Afora isso, os moradores da Austrália descobriram que o sapo é fabricante de uma droga que provoca alucinações de cerca de uma hora de duração, estimulação de várias parte do corpo e um envenenamento suave.

Logo, australianos começaram a (isso mesmo que você vai ler) lamber o sapo cururu para ingerir a bufoterina, um dos químicos presentes no corpo do sapo. Como os sapos fabricam esse químico em pequenas quantidades, os adeptos podem morrer ou adquirir sérias enfermidades.

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A prática também é conhecida de algumas regiões do Brasil

Por conta disso, os sapos cururus entraram na classificação número um de drogas do país, a mesma classificação dada a drogas como heroína e cocaína.

Pagando por boas ideias

Em 2005, o governo australiano anunciou que estaria pagando uma recompensa para quem tivesse uma boa ideia de como acabar com os sapos cururus. Na época, um inventor chamado Andrew Arthur acreditava ter encontrado uma saída com um aparelho chamado Toad Blasterque que imitava o som dos sapos. Dessa forma, ele acreditava que poderia amontoar uma grande quantidade de sapos e atraí-los a armadilhas.

Artigo de moda

Em 2013, o couro dos sapos estava sendo utilizado pela estilista Monika Jarosz para ser acessório de moda. Ela pegava os restos dos sapos com a ajuda de um taxidermista, que precisava passar por 14 processos de tratamento e lavagem para retirar todo o veneno, e pintava o couro de várias cores. Logo, os sapos estavam sendo usados como porta moedas, bolsinhas, pingente de colar e outras utilidades (ou inutilidades).

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                      A estilista Monika Jarosz