Todo mundo deve ter ouvido ou lido sobre as chamadas Luas sangrentas nesse último mês. Nome dado por alguns aos eclipses lunares programados para 2014 e 2015, e que fazendo buscas pela internet, encontram-se milhares de sites associando esse simples fenômeno astronômico a sinais bíblicos e a um apocalipse. Um nome antigo e sensacionalista de se chamar um eclipse lunar total, com o único intuito de espalhar o medo para se aproveitar das fragilidades, ingenuidade e analfabetismo científico das pessoas. Esse é esquema funcional usado por charlatões no intuito de usar da religiosidade e misticismos doentios com o objetivo cativar pessoas para seitas e religiões ou para vender livros e dar notoriedade a seus 15 minutos de fama.

O problema é que essa teoria absurda não é raridade, nos últimos anos estão aumentando muito. Afinal, é algo que está se tornando muito comum, e ocorre com mais frequência que os próprios eclipses lunares. E elas se proliferam com muita facilidade.

Catástrofes, extinções, Armagedon, asteróides cruzando os céus, ameaças nucleares, pessoas correndo, marcianos destruindo tudo. Tudo isso parece roteiro de filme hollywoodiano, daqueles com temas apocalípticos. E é! É também a imagem que muitos têm do fim do mundo, do momento que antecede o caos e o colapso de nossa sociedade. Fomos educados assim, pois vivemos em uma sociedade pautada em livros religiosos que terminam com o caos total, onde praticamente todos serão punidos e tudo que foi conquistado pelo homem será desfeito. Inconscientemente carregamos em nossa memória estórias e imaginações desse momento final e por isso a sociedade tem tanto fascínio por tal tema, alimentando sempre a necessidade de se precaver, a ansiedade por esse momento, e os mais profundos pesadelos e tormentos mentais sobre o fim do mundo.

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Todo esse sentimento de cisma social pelo apocalipse deixa de ser inofensivo no momento que boatos e lendas são expostas a um número cada vez maior de pessoas, muitas delas mal informadas e sem conhecimento suficiente para questionar a origem dos boatos, e que tomam isso como verdade, sem nunca checar as fontes. Nesse momento os devaneios individuais se tornam ameaças ao conhecimento e ao bom senso, pois pessoas influenciam pessoas, e toda influência tem peso, seja boa ou ruim. É nesse momento que charlatões entram em ação, na busca de seguidores para suas seitas, leitores para seus livros e principalmente alguns minutos de fama.

Sempre tivemos estórias de catástrofes, apocalipses e todo tipo de aberração que se possa imaginar contra a raça humana. Porém, nos últimos anos, até porque temos um acesso muito maior a informação que gerações passadas, a quantidade de besteiras que surgem sobre o tema é cada vez maior. Temos há alguns anos uma lenda que diz que Marte ficará do tamanho da Lua, nesse ano ela apareceu antes, no mês de abril, e todo ano ela retorna enganando muitos desavisados.  Ano de 2011 era o planeta Nibiru, ano retrasado o tal calendário Maia, depois no final do ano de 2012 foram três naves no padrão do Império (Star Wars), que estariam vindo para destruir a Terra em 2013, agora é a tal “Lua sangrenta” que vem dar o alerta de que o apocalipse está próximo. Aliás, até o sucesso melô grudento do coreano Psy, virou motivo de discussão por parte dos fãs de teoria da conspiração como sendo um sinal do fim dos tempos.  Para cada cometa que surge aparecem uma enxurrada de invencionices e teorias absurdas de que aquele pálido pedaço de gelo sujo possa ser o nosso fim e assim caminham as teorias da conspiração e as profecias furadas.

Cabe a todos que gostam e tem um mínimo de acesso a ciência, combater e desmistificar tais teorias, informando e incentivando as pessoas a procurar fontes, verificar a veracidade de tais informações e questionar antes de divulgar ou temer pelo pior.

A pseudociência se confunde muito facilmente com a ciência séria e na maioria das vezes seus resultados são mais mirabolantes que o da ciência verdadeira, tornando-se mais chamativo para o leigo. Basta ver o tamanho do espaço que a astrologia tem em jornais e revistas, o interesse que os programas sensacionalistas de TV têm pela ufologia, o tanto de curandeiros que ainda existem no mundo e o tanto de gente que busca solução em tratamentos alternativos, pessoas vendendo geradores infinitos de energia e por aí vai.

Porém essas teorias absurdas deixam furos.  E essa ferramenta tem, e deve, ser usada para que as pessoas questionem informações e não se iludam com notícias insensatas que fazem mal para o conhecimento. É normal ver pseudocientistas e pseudo-estudiosos amparando seus “trabalhos” em nome de cientistas sérios, conturbando dados e estudos de anos, insistindo em atribuir tais informações a agências de pesquisas renomadas. É comum ver o nome da NASA, CERN, ESA, e até mesmo o site Wikileaks, hoje na moda por vazar informações ditas como confidenciais.

É muito importante, antes de crer, divulgar ou viver qualquer informação, que se busque sua fonte, se realmente existem nos sites de tais agências essa informação, se aquele famoso cientista realmente disse aquela informação e principalmente, se existe lógica no que está lendo.

Afinal, já vivemos tantos finais de mundo, foram tantos armagedons, e tantos episódios de destruição da humanidade nos últimos anos, que já está perdendo a graça.

A recomendação que fica é aproveitem a oportunidade de ver os próximos eclipses lunares, que lembrem-se que a Lua fica com tom laranja resultante da refração e da dispersão da luz solar na nossa atmosfera, fenômeno que podemos assistir todos os dias em que o céu está limpo. Antes do nascer do Sol ou após o seu ocaso, também vemos o céu a nascente ou poente com um tom mais alaranjado e por vezes avermelhado e, se houver nuvens altas, também as veremos com essa cor.

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Artigo publicado originalmente na edição n° 2 da Revista AstroNova, cedido para o Ciência e Astronomia com todos os direitos de divulgação e utilização.