As pessoas abrem seus jornais preferidos todas as manhãs, e nele veem as notícias do dia, tudo que aconteceu no dia anterior, o que está previsto para o dia atual, e também para muitos como os astros influenciarão suas vidas profissionais, pessoais e amorosas. Uma cena do cotidiano de muita gente, mas que se ampara em uma influência cósmica sem nenhum fundamento científico, chamada astrologia.

A astrologia sempre foi uma forma da espécie humana suprir sua necessidade de tentar prever o que irá acontecer com o seu futuro e com o de sua sociedade. Antever, por exemplo, que o ano seguinte seria chuvoso tinha, pelo menos hipoteticamente, certa vantagem sobre os demais. Com certeza, isso ajudaria na agricultura na caça, no reparo das moradias, na estocagem de alimentos, e em muitos outros fatores fundamentais para a perpetuação da espécie.

Os povos antigos perceberam que o sol era essencial para as necessidades do homem, então eles concluíram que outros corpos celestes também deveriam ser. Ao olhar para o céu, era possível verificar as estações do ano, o que definia se era o momento de caçar, pescar, estocar alimento, plantar, colher. Determinadas plantas e frutas deveriam ser plantadas no outono, outras somente produzem no verão. Com o começo da civilização, saber a chegada da época das chuvas era fundamental para reparar os telhados, achar local para amparar os animais, guardar lenha seca para as fogueiras, e outros cuidados pertinentes, tornaram a vida mais fácil para todos.

O problema é que ao estudar o movimento dos astros, os antigos também esperavam para determinar a vontade dos deuses e assim prever o futuro em um âmbito mais individualista. Se os corpos celestes se mudassem de uma certa maneira e certos eventos acontecessem em seguida, então da próxima vez que eles se mudaram dessa forma, as coisas semelhantes deveriam acontecer. Isso é totalmente possível quando olhamos para o clima, ou para a produção de certos alimentos, mas se torna totalmente inútil quando tentamos prever o futuro de reinos, nascimento de príncipes, vitórias em batalhas e na arrumação da cama real.

Na antiguidade, os gregos estudaram os corpos celestes matematicamente e “cientificamente” e definiram os signos do Zodíaco. Nessa mesma época os nomes dos deuses gregos e romanos foram então atribuídos aos planetas.

Astrologia é a alegação de que os planetas abrigam no momento de nosso nascimento influência profunda em nossa vida e futuro. Os astrólogos eram empregados apenas pelo estado e em muitos povos tornava-se uma ofensa mortal se alguém que não era o astrólogo oficial lesse os presságios dos céus.

A astronomia e a astrologia nem sempre foram tão distintas, na maior parte da história, uma se sobrepôs à outra, mas chegou uma época em que a astronomia escapou do confinamento da astrologia, as duas tradições começaram a divergir na vida e na mente de Johannes Kepler, que foi quem desmistificou os céus ao descobrir que há uma força física por trás do movimentos dos planetas, sendo ele o primeiro astrofísico e o último astrólogo científico.

Mesmo com essa separação que varreu as bases intelectuais da astrologia, ocorrida há mais de 300 anos, ela ainda possui força e popularidade em uma sociedade ainda pautada pela vontade de acreditar e pelo misticismo. A prova disso é a quantidade de revistas especializadas nessa prática, existente nas bancas. Também jornais, praticamente todos, possuem colunas diárias de astrologia, assim como programas de variedades na Tv e rádio. E para muitos ela satisfaz a vontade de ter suas vidas ligadas ao universo.

Realmente estamos ligados ao universo, mas, mas não da forma como a astrologia sonha. Nossa espécie, e toda a vida do nosso planeta, depende da energia do Sol, assim como a Lua influencia diretamente a dança das marés. Mas essa ligação não é responsável pelo dia ruim que você teve, pelo namorado que arranjou, pelo emprego que perdeu.

Para a parcela dos leitores de jornal que leem e acreditam em astrologia, se questionados sobre sua confiabilidade, responderão que muitas vezes seus dias foram exatamente como descritos em seu horóscopo. Mas também com textos vagos, mensagens genéricas e frases de auto ajuda barata, tudo isso em um texto tão óbvio e cheio de lacunas que dói aos olhos. Textos cheios de palavras como: amigos, amor, ajuda, mente, melhor, pronto, energia, vida, segurança e sucesso, entre outras, fica fácil interpretar uma previsão que lhe agrade, e isso unido com o fator psicológico de quem está lendo, com certeza teremos gente acreditando nessa técnica. Mas tudo bem, algumas pessoas querem e precisam acreditar em algo. Como já disse Carl Sagan, a astrologia dá significado cósmico às rotinas dessas pessoas e, dentro de suas estranhas mentes, elas acreditam que seu destino e sorte são controlados pelas estrelas.

Carl Sagan também exemplifica na série Cosmos, que a astrologia pode furar em coisas simples, como a vida de gêmeos nascidos com apenas alguns segundos ou minutos de diferença, sobre a suposta influência dos mesmos astros, e que possuem vidas, com carreiras, profissões, amores e problemas tão diferentes. E até mesmo gêmeos onde um tenha morrido na infância, e outro que teve uma vida longe e próspera.

E essa falta de critérios científicos da astrologia também é visível ao se abrir os jornais, onde se pegarmos duas colunas de horóscopo, em jornais distintos, com total e absoluta certeza teríamos previsões opostas, e até contraditórias para cada signo. Talvez isso ocorra pelo fato de desprezarem que temos 13 constelações zodiacais, e não 12 como os astrólogos usam, pelo fato de desprezarmos nossas estrelas mais próximas, a influência gravitacional de buracos negros, talvez aquele cometa que era para dar espetáculo e foi pulverizado pelo Sol alterou todo seu destino. Ou o trivial e mais sensato, que é admitir o fato que seu horóscopo não está submetido ao método científico, e nada mais é que uma forma lucrativa de engodo adotada por um astrólogo perto de você.

Curandeiros, xamãs, bruxos, videntes, astrólogos, e toda a classe de charlatães surgiram, e ainda vão surgir, para realizar essa árdua tarefa de prever o futuro com o uso de cartas de tarô, borras de café, búzios, posição dos astros em relação ao signo do “cliente”, formato da freada na cueca, runas antigas, formato das linhas da mão, etc. E para eles, quanto menos as pessoas questionem suas falhas, melhor, pois enquanto existir crédulos, existirá lucro nessas práticas.

Videntes falham, sempre! Se quiser virar um vidente de verdade, só faça previsões genéricas e bem amplas. As chances de erros são nulas. Caso erre em alguma previsão, diga que houve uma mudança no futuro!

Essas práticas acontecem desde o início da civilização, e enquanto não tivermos uma população totalmente alfabetizada cientificamente, dificilmente elas perderão seu espaço. Mas não nos custa “prever” e sonhar com o dia em todos terão consciência de perceber que a única coisa que nos conecta aos planetas e estrelas são os átomos que nos constroem.

Texto original da revista AstroNova, cedido ao Ciência e Astronomia, com todos os direitos de publicação e utilização.